Batalha do Mar de Coral 6a Parte
Escrito por Sidnei Eduardo Maneta   
Seg, 04 de Março de 2013 00:00

Assim que Takahashi emitiu a ordem “To tsu Re”, cujo significado é “entrar em formação de ataque”, os bombardeiros de mergulho “Kanbaku” iniciaram a subida para a altitude de 5.000 metros, enquanto os torpedeiros “Kanko” iniciaram a descida para 1.200 metros.

O ATAQUE DOS TORPEDEIROS “KATE”

Os torpedeiros do IJN Shokaku manobraram a direita para se aproximarem a bombordo do USS Lexington, enquanto metade dos torpedeiros do IJN Zuikaku virou a esquerda para atacar o estibordo, deixando os outros quatro torpedeiros do IJN Zuikaku para atacarem o bombordo do USS Yorktown. As pesadas perdas de “Kate” do dia anterior deixaram poucos para os japoneses realizarem um ataque completo contra ambos os porta-aviões americanos.

Apesar do alerta de radar já ter sido emitido há vinte minutos, a patrulha aérea de combate (CAP) estava mal posicionada e falhou em bloquear o ataque japonês.
A defesa da TF-17 estaria a cargo de quinze caças F4F voando em missão de CAP, sendo que nove destes caças foram enviados para interceptar o grupo de ataque japonês a cerca de vinte e quatro a trinta e dois quilômetros a frente e oito caças realizariam a interceptação mais próxima, até dezesseis quilômetros. Além deste grupo de oito caças, outro grupo formado por vinte e três SBD participaria desta defesa, em patrulha de interceptação a baixa altitude que teria como alvo apenas os torpedeiros japoneses. Além da metralhadora do artilheiro de ré, os SBD contavam com duas metralhadoras .50 alojadas sobre o capô do motor. Os caças americanos destacados para a interceptação mais distante da TF-17 estavam voando em altitudes diversas, mas conseguiram observar a formação japonesa se aproximando. Deste grupo quatro caças F4F voavam a 762 metros de altitude, dois caças cerca de 1.000 metros de altitude e três caças a mais de 3.000 metros de altitude.


Perfil colorido do B5N2 código de cauda EI-324 pertencente ao IJN Shokaku. Este bombardeiro sobreviveu a batalha e foi destacado para o porta-aviões IJN Ryujo durante o ataque as Aleútas em junho 1942.

Às 11h09, Takahashi sinalizou o tipo de formação a ser empregada e o grupo de ataque se dividiu, com cada elemento seguindo em frente para realizar sua missão. Os dezoito caças japoneses A6M2 liderados pelos buntaichos tenentes Takumi Hoashi (IJN Shokaku) e Yuzõ Tsukamoto (IJN Zuikaku) deveriam dar suporte aos torpedeiros, que se presumia sofreriam a grande oposição da CAP americana.

Às 11h10, com uma aproximação do nordeste, Takahashi ordenou o início do ataque com o código “To, To, To, To”. Um minuto depois, os porta-aviões USS Lexington, que estava na dianteira, e o USS Yorktown, que seguia logo após, tentavam escapar para o sudoeste. Os dois manobraram para estibordo na direção 125º graus, posicionando os japoneses em seu bombordo.
Takahashi conduziu os trinta e três bombardeiros de mergulho em um largo círculo no sentido anti-horário com o objetivo de atacar da direção contrária do vento, enquanto Shimazaki liderou os torpedeiros diretamente contra os porta-aviões.

Assim que o hikotaicho Shimazaki se aproximava do alvo, ele acionou sua própria tática de ataque. Seus dezoito torpedeiros realizavam um mergulho raso dos 3.000 metros de altitude. A sua frente Shimazaki discerniu a silhueta inconfundível de um porta-aviões da classe “Saratoga” e decidiu concentrar o ataque contra ele. Shimazaki iria atacar o grande porta-aviões que ele pensava ser o USS Saratoga, com um grupo de 14 torpedeiros e enviou o grupo restante de quatro torpedeiros contra o porta-aviões menor da classe “Yorktown”. Shimazaki orientou a unidade formada por quatro aviões e liderada pelo tenente Zen’ichi Satõ a se separar para o oeste para atacar o USS Yorktown. A cobertura aérea deste segundo grupo seria feita por três caças “Zero” do IJN Zuikaku e liderados pelo suboficial de primeira classe (PO1c) Satoshi Kanõ.
Para enfrentar o “Saratoga” o líder Shimazaki liberou a formação composta por dez aviões do IJN Shokaku a atacar o grande porta-aviões. Os quatro aviões da unidade do IJN Zuikaku e lideradas por Shimazaki seriam a outra pinça da formação de ataque.
Quinze caças A6M2 estariam responsáveis pela proteção deste grupo de torpedeiros, sendo seis do IJN Zuikaku e nove do IJN Shokaku. Descendo para 1,200 metros, o grupo de torpedeiros faria sua aproximação nesta altitude, até o momento final quando um mergulho para a altitude de lançamento os deixaria entre 45 ou 76 metros acima do mar.

Às 11h16, a cerca de 6.437 metros do alvo, o grupo de torpedeiros sofreu o ataque de um caça F4F. Um dos “kanko” da formação do próprio Shimazaki foi atingido e caiu em chamas no mar. Rapidamente, três caças japoneses liderados pelo subofical de primeira classe (PO1c) Shigeru Makino do IJN Zuikaku reagiram e se iniciou o combate aéreo, entre o solitário F4F e os A6M2. Apesar da alegação de vitórias aéreas de ambos os lados, apenas um torpedeiro japonês foi abatido.
Shimazaki se lembrava nitidamente deste combate: “Nossos caças “Zero” e os caças “Wildcat” giravam, mergulhavam e subiam no meio da formação dos torpedeiros. Aviões em chamas e danificados mergulhavam dos céus!”

Às 11h17 foi vez de oito SBD que faziam parte da patrulha a baixa altitude tentarem atacar este grupo de torpedeiros. Esta missão se tornou impossível de ser efetuada uma vez que os torpedeiros desciam em alta velocidade, e desta maneira acabaram passando pelos SBD antes que estes pudessem atirar contra eles. Os SBD voavam em pares e acabaram ficando dispersos. Estes SBD acabaram se tornando alvo dos caças A6M2, que fizeram da vida deles uma miséria. Quatro SBD foram abatidos. Os japoneses não perderam nenhum A6M2 neste combate aéreo.


Nakajima B5N2 “Kate” possivelmente abatido pela flak ou pelos SBD utilizados em missão de CAP a baixa altitude pelos americanos.

Fora da cortina de destróieres, o grupo de torpedeiros japoneses executava sua formação final de ataque.
A formação do IJN Shokaku se dividiu em dois elementos de ataque: tenente Yoshio Iwamura comandando quatro torpedeiros e tenente Ichihara comandando seis torpedeiros. O buntaicho Ichihara orientou Iwamura a se desviar para a esquerda com seu grupo de quatro torpedeiros. Este grupo de quatro torpedeiros seria uma parte da pinça de ataque contra o estibordo USS Lexington. Os outros seis torpedeiros atacariam diretamente o bombordo do USS Lexington. A sua direita o grupo de três torpedeiros liderados por Shimazaki seriam o outro braço de ataque contra o USS Lexington. Os outros quatro torpedeiros do IJN Zuikaku atacariam sozinhos o USS Yorktown.
Outros SBD da unidade VS-2 estavam em excelente posição de interceptação. De repente os torpedeiros japoneses apareceram e já estavam mergulhando para alcançar o ponto de lançamento. Alguns destes SBD atacaram rapidamente e conseguiram uma boa oportunidade de tiro. Três B5N2 do IJN Shokaku foram atingidos e em chamas caíram no mar. Entre estes estava o avião do tenente Iwamura. Neste momento, os caças “Zero” apareceram. Do grupo inicial formado por dezoito torpedeiros restaram apenas quatorze, sendo que os quatro abatidos foram vítimas de um F4F e de três SBD. Agora as baterias antiaéreas deveriam se opor aos atacantes. Armas de vários calibres seriam utilizadas. As armas de cinco polegadas para distâncias maiores, e as armas de 1.1 polegada, 20mm e .50 para distância menores. Os artilheiros americanos criaram uma verdadeira cortina de balas a frente dos aviões japoneses. Os porta-aviões americanos aumentaram a velocidade no máximo, entre 32 e 33 quilômetros por hora.

Às 11h18 Satõ direcionou seus quatro torpedeiros do IJN Zuikaku diretamente contra o bombordo do USS Yorktown. Os artilheiros americanos tiveram certa dificuldade em fazer pontaria nos “Kate” por causa da alta velocidade destes. Os cruzadores também abriram fogo contra esta pequena formação de aviões japoneses que já estava na altitude de lançamento de torpedo. Os tufos escuros das explosões das baterias antiaéreas tentavam forçar a formação a lançar seus torpedos a distância de 914 metros. Um dos torpedeiros lançou seu torpedo, e de repente chamas engolfaram toda a fuselagem. O avião manteve o curso por cerca de 90 metros, depois girou e se chocou entre o USS Yorktown e o cruzador pesado USS Chester. Os outros três torpedeiros do IJN Zuikaku perseveraram mais 457 metros perseguindo o USS Yorktown que fazia manobras evasivas, e às 11h19 lançaram seus torpedos. O USS Yoktown conseguiu se esquivar dos três torpedos. Outro torpedeiro foi atingido e expelindo fumaça acabou caindo na área de batalha próximo do USS Yorktown. Os dois aviões sobreviventes escaparam para a direção oeste. Ainda tentando escapar um destes aviões foi atacado por um SBD que não conseguiu abatê-lo, mas o comandante da aeronave, o suboficial sênior (WO) Tamorio Niino, foi morto pelas balas deste SBD.


Torpedeiro japonês passa próximo de um destróier americano minutos antes de lançar seu torpedo.

Utilizando a técnica de aproximação para um ataque total, os japoneses articularam para pegar o USS Lexington entre os dois grupos de torpedeiros que convergiam contra ele. O navio americano não teria muitas alternativas para escapar, pois se tentasse se evadir de um grupo se tornaria alvo do outro grupo. A shotai do IJN Zuikaku comandada por Shimazaki era composta por três “Kate” e um grupo do IJN Shokaku formado por dois “Kate” viraram em direção ao bombordo do USS Lexington.
Outros seis “Kate” do IJN Shokaku atacariam também. Os velozes Nakajima B5N2 eram tripulados por homens altamente treinados e capazes de realizar este tipo de manobra coordenada. Esta seria a primeira oportunidade que os japoneses teriam para afundar um porta-aviões da classe “Saratoga” e eles não iriam desperdiçá-la. Às 11h18 a unidade de Shimakazi voava a altitude de 45 metros e lançou seus torpedos. O USS Lexington conseguiu evitá-los. Shimazaki ficou espantado com o volume de fogo antiaéreo e precisou diminuir sua altitude ainda mais, chegando quase ao nível das ondas para conseguir escapar. Seus dois alas o seguiam na manobra. Por pouco ele não colidiu com o USS Lexington. Depois ele reportou: “Na verdade, quando eu manobrei para me afastar do navio inimigo, eu estava tão baixo que quase atingi seu costado, pois estava voando abaixo da linha do convés de voo. Eu pude ver os marinheiros do navio olhando fixamente para o meu avião enquanto eu passava ao lado”.
O ataque foi muito bem coordenado com uma shotai formada por apenas dois “Kate” do IJN Shokaku, uma vez que já havia perdido dois aviões para os SBD. Os dois aviões manobraram para a direita e lançaram seus torpedos. Estes também erraram o alvo.

Todavia, duas outras formações japonesas se aproximavam para o ataque final. O grupo posicionado a direita era agora liderado pelo tenente Norio Yano e formado por três “Kate”, e o grupo a esquerda era liderado pelo tenente Tatsuo Ichihara e formado por três “Kate”. O grupo da direita foi atacado por um SBD que deixou em chamas o avião do líder Yano. Os pilotos dos dois “Kate” restantes mudaram de ideia e ao invés de atacar o USS Lexington acabaram atacando o USS Minneapolis, que conseguiu manobrar e escapar dos dois torpedos lançados. Estes pilotos japoneses conseguiram escapar da área de batalha e retornar a Força Móvel MO relatando que tinham conseguido atingir um encouraçado.
O avião já danificado de Yano acabou voando na direção da cortina de fogo antiaéreo do USS Lexington. Vazando combustível e em chamas, o “Kate” girou e ficou de ponta cabeça. Acabou se espatifando no mar com uma explosão com chamas brilhantes próximo do porta-aviões americano.


Perfil colorido do B5N2 código de cauda EII-323 pertencente ao IJN Zuikaku.

Restava agora apenas a formação liderada pelo tenente Ichihara. Eles teriam uma participação decisiva no ataque. Mesmo debaixo de pesado fogo antiaéreo, os “kanko” voavam baixo em direção ao USS Lexington. A formação do tenente Ichihara se aproximou a distância de 914 metros, preparada para o lançamento dos torpedos a altitude de 76 metros. Quando os torpedeiros “Kate” estavam a 640 metros efetuaram o lançamento. O primeiro torpedo mergulhou muito profundamente na água, e não conseguiu corrigir sua trajetória. Acabou passando por baixo da quilha do navio americano.
Às 11h20 os japoneses conseguiram acertar o USS Lexington a bombordo por dois torpedos. Estes impactos emperraram o elevador dianteiro do convés de voo, danificaram seriamente os tanques de combustível de aviação e inundaram vários compartimentos, forçando o desligamento de três caldeiras. O USS Lexington ainda lutava com uma inclinação de 6,5 graus e sua velocidade foi reduzida a vinte e quatro quilômetros por hora.
A formação liderada por Ichihara também conseguiu escapar da área de batalha.
O ataque final dos torpedeiros japoneses durou cerca de três minutos, das 11h18 às 11h21.
No final deste ataque dos torpedeiros, o resultado foi um torpedeiro do IJN Zuikaku abatido antes dele iniciar sua corrida final contra os porta-aviões americanos e outros seis torpedeiros abatidos durante o ataque final (dois do IJN Zuikaku e quatro do IJN Shokaku) sendo três por bombardeiros de mergulho SBD, dois apenas pelas baterias antiaéreas dos destróieres e cruzadores e um compartilhado por um SBD e a flak. Isto aconteceu durante suas corridas finais para o lançamento dos torpedos ou tentando escapar da área de combate.

Agora seria a vez dos “kanbaku” atacarem...

BIBLIOGRAFIA:
1.Livro: FIRST TEAM: PACIFIC NAVAL AIR COMBAT FROM PEARL HARBOR TO MIDWAY - by John B. Lundstrom
2. Livro: AICHI 99 KANBAKU 'VAL' UNITS: 1937-42 - by Osamu Tagaya

 
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