17 Minutos
Escrito por Augusto Versiani   
Sex, 18 de Fevereiro de 2011 22:27

 

 

MAJOR ROBERT CRISP

 

Do livro Brazen Chariots

 

 A ordem veio através do intercomunicador. Do comandante para a tripulação: "Motorista, avance. Aumentar a velocidade. Artilheiro, carregar ambas as armas." Os Honeys saltaram à frente a partir do topo da elevação descendo rápidos em direção ao Trigh. Eu sabia que o meu motorista, que estava acostumado a esse tipo de coisa, estaria com seu pé fundo no acelerador, forçando seu olhar através da pequena fresta em frente a ele para evitar os repentinos aglomerados de rocha ou pequenas valas que se espalhavam pelo terreno sempre disputado. De cada lado os Honeys me acompanhavam. Isso era bom. Meu relógio de pulso marcava uma hora enquanto eu segurava firme na borda da cúpula e apertava minhas costas contra o outro lado para me manter montado no tanque sacolejante.

Nós já estávamos a meio caminho da descida e avançando como morcegos saindo do inferno em pleno sol brilhante, antes que os Jerries percebessem o que estava acontecendo. Então o padrão familiar de confusão e fuga em pânico se deu formando ângulos retos com a estrada. Não houve qualquer perda de velocidade e em mais um minuto nós atingimos a areia fofa da mal conservada estrada do deserto e entramos no meio da nuvem de poeira que os veículos em pânico espalhavam na direção norte.

Eu tinha em mente a mesma intenção de outras ocasiões: ir direto através deles, cercando e cortando a fuga de tantos quanto possível, atirando em qualquer coisa que tentasse nos ultrapassar. Coloquei o microfone junto dos meus lábios e disse rapidamente aos meus comandantes de tanque que começassem a atirar. O meu próprio artilheiro apertou o gatinho imediatamente e em alguns segundos a poeira se encheu de um emaranhado de linhas vermelhas traçantes que através da nuvem de pó amarelo perfuravam as fugitivas formas escuras em pontos mortais. Do topo das torres nós ajudávamos com metralhadoras e revólveres e seguidamente o som dos trinta e sete milímetros interferia no staccato matraquear das Brownings. Eu podia ver um ou dois Honeys correndo a meu lado, mas o que estava acontecendo além desse estreito limite de visão eu podia apenas adivinhar. E o meu palpite é que todo o esquadrão estava ali. Mais um minuto talvez, eu pensei, e então daria a ordem para fechar o cerco.

 

O Honey

 

 

De repente, em meio à poeira, eu vi o chão plano desaparecer no espaço. Gritei como um louco para que o motorista parasse. Ele havia visto perigo apenas uma fração de segundo depois de mim, e enfiou o pé no freio quando eu ainda estava gritando para ele. As esteiras travaram arrancando areia e pedras numa rápida e frenética luta para parar o tanque. Nós paramos numa violenta derrapada com as rodas tratoras penduradas sobre a borda de uma acentuada escarpa. A primeira coisa que eu vi através da poeira, cerca de dez jardas em frente e abaixo de mim, foi uma motocicleta com sidecar virada de lado e com três soldados alemães de pé eretos em fila atrás dela, as suas costas voltadas para mim e as suas mãos estendidas acima das cabeças. Eu imediatamente rejeitei um rápido impulso de atirar contra eles. Enquanto minha mente estava tentando absorver esta aparição eu me dei conta da incrível cena ao pé da escarpa onde ela nivelava dando em um largo wadi. Veículos de todas as formas e tamanhos estavam em toda parte. Alguns ainda sobre suas rodas se afastando como podiam, outros parados e confusos; muitos tombados de lado ou capotados com as rodas apontando grotescamente para cima. Figuras escuras de homens correndo para todos os lados.

No mesmo momento em que o observava, um grande caminhão desceu saltando pela escarpa fora de controle; ele atingiu algum obstáculo no terreno e saltou alto no ar, dando uma cambalhota em direção ao fundo em uma fantástica avalanche de terra, pedras, cascalho e corpos mal definidos de homens misturados a fragmentos de madeira e de metal. A concentração de transportes no wadi abaixo era um grande alvo. Eu disse rapidamente no intercomunicador: "Ambas as armas. Homens e veículos. Disparem com tudo o que têm."

As balas zuniam algumas polegadas acima das cabeças das três figuras imóveis na frente do tanque. Eles não moviam um músculo. Quando o canhão de 37mm disparou eles deram um pulo involuntário mas nenhum deles virou a cabeça ou deu qualquer indicação na qual se pudesse ver medo ou curiosidade. Eles apenas ficaram ali três costas e três pares de braços enquanto as traçantes formavam uma corrente plana de linhas retas diretamente dentro da confusão poeirenta abaixo. Eu ficava imaginando onde estaria o resto dos Honeys e se estavam tendo uma chance tão boa quanto a minha.

De repente houve um assustador bang e simultaneamente eu fui encharcado da cabeça aos pés com uma surpreendente cascata de água fria. Por um momento ou dois eu fiquei física e mentalmente paralisado. Eu simplesmente não consegui acreditar que algo como isso pudesse acontecer. Então a consciência veio rápida e terrível... os galões de água atrás do tanque haviam sido atingidos. Isso só poderia significar uma coisa. Ao mesmo tempo em que olhava para trás eu dava ordem ao artilheiro para girar a torre o mais rápido que pudesse. Em um lampejo de compreensão eu percebi tudo e o medo se espalhou pelo meu corpo. A não mais de cinquenta jardas de distância um canhão antitanque de cinquenta milímetros apontava direto para o Honey, apontava diretamente entre os meus olhos. Além dele havia outros canhões e à medida que a poeira foi baixando sobre a escarpa eu vi o que mais temia: um certo número de Honeys imóveis e um grupo de silhuetas humanas com boinas pretas que se arrastava pela areia ou estava estendida em uma agonia de morte.


Levou menos de um segundo para que toda essa terrível cena ficasse registrada em minha mente. Eu pude ver os alemães carregando a próxima bala no canhão enquanto a torre ainda girava. Eu gritei: "Metralhadora, disparar". No mesmo momento eu vi sair uma fumacinha do antitanque e senti e ouvi o impacto na blindagem. Rapidamente eu olhei para baixo dentro da torre. Abaixo de mim o artilheiro olhava para a sua mão que estava coberta por sangue que lentamente se espalhava. Ele deu um grito e caiu se contorcendo no chão. No canto direito da torre formou-se um grande buraco em que se podia ver através e, como num tipo macabro de Peepshow, eu pude ver o canhão sendo recarregado. Eu percebi que em mais alguns segundos estaria morto, mas alguma coisa além da razão ou da sanidade impeliu meus músculos e ações.

 

O 50mm Alemão

 

Eu me abaixei e apertei o gatinho e mantive meu dedo ali até que a arma travou. Deus sabe onde as balas foram parar. Duas vezes eu senti o Honey tremer e uma segunda vez uma torrente de água entrou pela torre. Quando a Browning parou, e a minha mente procurou por alguma forma de ficar vivo,  de repente percebi uma pequena chance. Se o tanque ainda pudesse se mover, e nós pudéssemos passar da borda da escarpa, nós estaríamos fora da visão daqueles malditos antitanques. Eu podia vê-los enquadrados naquele buraco da torre, os artilheiros trabalhando febrilmente, as suas faces contraídas e selvagens. Eu disse com urgência no microfone: "Motorista, avançar. Direto sobre a borda. Rápido!".

Nada. Eu pensei: "Meu Deus, Whaley se foi. Nós todos vamos". E gritei para baixo dentro da torre: "Motorista, avançar. Pelo amor de Deus, avançar!". Então eu vi o que estava acontecendo. Quando caiu, o artilheiro havia se enroscado nos cabos do interfone do motorista. Os cabos estavam esticados ao redor do seu pescoço puxando para trás contra o assento do motorista, deixando-o meio estrangulado. Ele lutou freneticamente com os fones e conseguiu arrancá-los. Ele nem ao menos precisou ouvir meu chamado em pânico. Eu senti as engrenagens engatarem e por uma fração de segundo o mundo ficou imóvel. Então o motor acelerou e o Honey avançou e caiu violentamente pela escarpa. Dentro da torre nós fomos jogados para cima como rolhas e então o balanço parou e nós descemos suavemente pela encosta. Nós estávamos fora da visão dos canhões no topo da escarpa e com uma grande dose de surpresa eu percebi que nós íamos sair dessa. Os três motociclistas alemães continuavam ali imóveis. O tanque deve ter passado por eles não mais do que a algumas polegadas, ainda assim eles ficaram ali com suas mãos para o alto. Abaixo no compartimento de direção, Whaley estava lutando com os controles para manter o tanque num curso diagonal que nos levasse ao fim do declive longe dos inimigos. Assim que o solo se nivelou eu ordenei que virasse à direita num pequeno wadi que oferecia um caminho seguro em direção ao sul. Nós avançávamos com a torre virada ao contrário e eu cutuquei o operador com meu pé enquanto ele estava curvado sobre o artilheiro prostrado e indiquei que queria que a torre fosse girada para a posição normal. Enquanto ele girava a manivela eu não pude resistir a dar mais uma olhada naqueles três homens. Incrivelmente eles ainda estavam lá da mesma maneira que os tínhamos deixado. Eu comecei a pensar que eles deviam estar literalmente petrificados de medo e permaneceriam ali por séculos como uma espécie de miraculoso monumento.

Tanto havia acontecido em poucos minutos, ou talvez tenham sido poucas horas, eu havia olhado o vale das sombras tão de perto que achava difícil voltar à realidade. Eu simplesmente não conseguia concatenar toda a situação. Precisei sentir a dureza da blindagem e olhar para as figuras familiares da tripulação para perceber que nós ainda estávamos vivos, e que íamos sair dessa vivos. O artilheiro jazia ali gemendo de dor e soluçando de medo. Não havia nada de muito errado com ele, e gritei com ele de forma áspera de modo a recompô-lo. Meus pensamentos foram então para o resto do esquadrão. Onde estavam eles? O que havia acontecido a eles? Estavam todos mortos? Isso era algo que eu tinha de descobrir. Nós avançávamos pelo deserto através do silencioso wadi. Era estranho depois do tumulto e do terror de apenas alguns momentos atrás, era como se nós não estivéssemos mais na terra, como se estivéssemos dirigindo em algum tipo de tanque fantasma em um outro nível de existência... como se estivéssemos mortos. Quando coloquei o microfone nos meus lábios eu estava esperando que não saísse qualquer som. A falta de realidade persistia enquanto o Honey virava à direita em resposta à minha ordem e se movia lentamente para o topo da encosta. Assim que os meus olhos passaram a borda da escarpa nós paramos e toda a imagem de horror me atingiu imediatamente.

Não mais de quinhentas jardas de distância, como a projeção em uma tela de cinema, se espalhava o campo de batalha. Meus olhos acompanharam as altas colunas negras, carregadas lentamente pelo vento e a seguiram para baixo até os Honeys que soltavam a fumaça. Quatro dos meus tanques eram um inferno de chamas, três outros estavam apenas parados ali, tristes e abandonados. Uma linha de canhões antitanques permanecia em expectativa, alinhados com a borda da escarpa. Toda a cena estava perfeitamente bem definida contra as nuvens amarelas de poeira que subiam do wadi abaixo. Eu pude ver muitos homens correndo entre os canhões, tanques e veículos. Meu coração apertava à medida que eu percebia as boinas familiares de nossas tropas sendo conduzidas em grupos, guardadas e pastoreadas por alemães que gesticulavam intensamente.

Não havia nada que eu pudesse fazer? Imaginei por um momento atacar a linha dos canhões antitanques passando por cima deles antes que pudessem me ver. Se eu tivesse um artilheiro para disparar a Browning talvez  conseguisse. Do jeito que vejo devo ser grato de isso não ter sido possível e assim prolonguei a minha vida e a de minha tripulação. Mas quem sabe? Talvez tivesse funcionado. Como uma forma de aliviar a minha grande frustração e impotência eu fiquei em pé na torre e acenei com o meu boné. Talvez houvesse uma chance que algum artilheiro, operador ou motorista, ou quem sabe um dos comandantes que, esperando pela noite, pudesse se arrastar num momento de distração do inimigo para conseguir escapar. Mas foi mais um gesto de completo desespero e quanto eu ouvi o zunido passando por minhas orelhas, seguido do rápido latido das metralhadoras,  pulei de volta para dentro da torre e disse pelo intercomunicador: "Ok, Whaley. Não há mais nada que possamos fazer. Vamos voltar."

Nós seguimos pelo wadi pela direção sul à medida em que ele ia ficando mais e mais raso. Finalmente atingimos um platô desobstruído sobre o qual nós tínhamos avançado de forma tão destemida... Quando? Dez minutos atrás? Uma hora atrás? Hoje? Ontem? Quantas vidas atrás? Olhei o meu relógio de pulso assim que nós paramos no fim da depressão. Os ponteiros indicavam dezessete minutos depois de uma. Dezessete minutos.

.........................................

Naquela noite, algumas milhas além no deserto, um oficial germânico do 33° regimento de artilharia estava escrevendo no seu diário:

" Um grupo de tanques inimigos atacou os veículos de suprimento na retaguarda da divisão. Eles apareceram bem no meio da coluna e dispararam com canhões e metralhadoras contra os veículos que avançavam, a toda velocidade. As baterias 6 e 8 imediatamente fizeram meia volta com seus canhões, mas a nuvem de poeira era tão densa que eles nada podiam ver até que de repente os tanques inimigos apareceram saindo de dentro da nuvem a cerca de 50 metros a frente da posição dos canhões da bateria 6. Nós imediatamente abrimos fogo a queima roupa. Um tanque rompeu em chamas. Outro logo atrás dele foi posto fora de combate. Em um curto período a bateria destruiu mais 10 tanques inimigos a queima roupa, e assim desbaratou o ataque a retaguarda da divisão"

 
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