Blefe em Sorau: Uma missão com o 335th FG
Escrito por Júlio Martins   
Ter, 08 de Fevereiro de 2011 10:03

Ninguém chamaria uma missão de caça de agradável, divertida ou engraçada, mas algumas delas - pelo menos em retrospecto - têm um certo elemento de humor. Uma dessas experiências ocorreu com um dos maiores ases americanos da guerra, em uma missão perigosa e bem sucedida na Alemanha. Nessa ocasião, a guerra aérea estava no auge, faltavam apenas dois meses para a invasão aliada. Nessa missão, que ocorreu apenas um mês após ao bombareio de Berlim descrito capítulo anterior, os caças americanos chegavam novamente às proximidades da capital alemã.

O astro da missão de 11 de abril de 1944 foi o Segundo-Tenente Henry W. Brown, de Dallas, Texas (que mais tarde foi abatido pelos alemães e capturado). Nesse dia memorável, Brown voou com quatro P-51 Mustangs da Esquadrilha Azul do 354th Fighter Squadron (355th Fighter Group).

A missão começou sem problemas. A Ordem de campo 295 do Comando de Caças da Oitava Força Aérea instruía vários grupos de caças na Inglaterra para escoltarem bombardeiros em uma missão contra Sorau, perto de Berlim. Os grupos de caças se encontrariam com os bombardeiros em pontos diferentes do trajeto, revezando-se na escolta.

O 355th deveria encontrar-se com os bombardeiros perto do Lago Dummer e escoltá-los até o alvo. Depois do bombardeio, se as condições permitissem, o grupo se dividiria em três esquadrões para atacar alvos na Alemanha.

Com essas ordens à sua espera e mais de quarenta missões de combate cumpridas, o Tenente Brown saltou da cama às 4 da manhã de terça-feira, 11 de abril, na Base Aérea de Steeple Morden (sede do 355th), vestiu-se e dirigiu-se para a sala de reuniões do grupo.


Pouco depois, os pilotos dos três esquadrões estavam ouvindo as instruções do Líder do Grupo, Everett W. Stewart, e dos oficiais de informações e meteorologia. A reunião levou quarenta e cinco minutos. Ao final, os pilotos haviam copiado cuidadosamente as palavras de código, as instruções de vôo, os sinais dos bombardeiros, os chamados de emergência pelo rádio e todas as outras informações que dariam a cada piloto a melhor oportunidade possível para voltarem vivos da missão. O vôo até Sorau seria feito em baixa altitude, a 3.900 metros. Stewart voaria com o 354º FS.

Indo de bicicleta para o quartel-general do esquadrão, a quase dois quilômetros de distância, os pilotos do 354th olhavam para o céu tentando adivinhar como estaria o tempo. A luz débil da madrugada revelava um céu nublado. Estava úmido e frio em Steeple Morden.

Depois de uma breve reunião do esquadrão, em que foram discutidas táticas de ataque e as posições de vôo, os pilotos pedalaram para o refeitório -mais dois quilômetros de bicicleta -, onde fizeram um desjejum apressado que consistia de suco de laranja com vitaminas, ovos em pó, torrada, marmelada e café: Então estava na hora de voltar para o quartel-general do esquadrão. O rugir dos bombardeiros das bases vizinhas, que haviam começado a decolar às 4 da manhã, estava começando a desaparecer. Quase todos já estavam a caminho.

Depois de vestirem os trajes de vôo, os pilotos do 354th se dirigiram para os caças, já preparados com cuidado pelo pessoal da manutenção. Brown subiu a bordo do Caçador de Hunos do Texas (The Hun Hunter ~ Texas) pouco antes das oito. Seu caça já exibia com orgulho uma fila de suásticas pintadas na fuselagem - uma para cada inimigo abatido. A essa altura, ele já era um grande ás.

O 354th foi o primeiro dos três esquadrões de Steeple Morden a decolar, porque o comandante do grupo estava voan do com o 354th. Seu nome de código era Haywood. Cada uma das quatro esquadrilhas Haywood era designada por uma cor. A esquadrilha da frente era a Esquadrilha Vermelha. Brown era Haywood Azul Quatro.

Stewart taxiou seus quinze caças (o esquadrão tinha menos um caça que o normal) até à extremidade da pista norte-sul de Steeple Morden. Faltavam alguns minutos para as nove. Depois de todas as laboriosas verificações de rotina, ele fez um sinal para seu ala e o 354th começou a decolar. Com o ruído dos motores acelerados ecoando pela planície, o 354th formou um grande círculo em torno da pista. Quando todos os aviões estavam no ar, Stewart apontou o nariz do seu caça na direção de Berlim.

Os quinze P-51 de asas verdes do 354th subiram em direção às nuvens baixas que cobriam a Inglaterra. 356th e o 357th iam logo atrás. A visibilidade era excelente e os esquadrões subiam em fila - uma esquadrilha atrás da outra. Um por um, a 900 metros, os caças penetraram na massa cinzenta, desaparecendo momentaneamente para tomar a surgir acima da camada de nuvens, que era relativamente estreita. Acima das nuvens, o céu estava de um azul brilhante.

A costa da Inglaterra, visível através de aberturas nas nuvens, foi atingida a uma altitude de 2.100 metros. Os esquadrões, continuando a subir no rumo leste, voavam em formação de combate. Os pilotos se mantinham ocupados verificando as metrlhadoras e os instrumentos do painel e ajustando constantemente o acelerador para manter uma taxa de subida de 250 km/h.

A travessia do Mar do Norte, que levaria mais de vinte minutos, foi feita com os rádios em silêncio total. A frente estava o litoral da Holanda, a quase duzentos quilômetros das praias inglesas. O único fator externo a perturbar o silêncio carregado de tensão do início da missão era a interferência dos transmissores alemães, que se tornava mais forte à medida que os Mustangs se aproximavam da costa do Continente.

O grupo chegou à altitude prevista de 3.900 metros e parou de subir. Os pilotos passaram do tanque da fuselagem, um tanque adicional colocado no espaço atrás da nacele, para os tanques ejetáveis. A idéia era queimar o mais depressa possível o combustível do tanque da fuselagem, que afetava adversamente as características de vôo do Mustang, e a gasolina dos tanques de reserva, que teriam que ser ejetados em caso de ataque. Usados para aumentar a aUtonomia do caça americano, os dois tanques de reserva (mais de 500 litros de combustível em cada um) e o tanque da fuselagem, com capacidade de 450 litros, mais os dois tanques das asas, de 500 litros, davam ao Mustang uma capacidade de combustível de 2.500 litros, tornando-o o caça de maior alcance da guerra.

Com esta carga de combustível, cerca de 2 .000 salvas de munição calibre cinqiienta e o peso de um grande motor Rolls-Merlim refrigerado a água, além do peso normal da fuselagem, do equipamento de rádio etc., a aeronave mal podia voar. Com um motor mal regulado, funcionando com uma potência ligeiramente abaixo da nominal, o caça não conseguiria levantar vôo. Era preciso usar os 2.000 cavalos do motor para tirar um P-51 sobrecarregado do solo, e até os pilotos consumirem o combustível da fuselagem e ejetarem os tanques de reserva, o Mustang não tinha condições de enfrentar um ME-109 ou um FW-190. Este era o preço que se pagava por uma autonomia maior de vôo.

Brown havia queimado combustível do tanque da fuselagem e cinqiienta litros do tanque da asa esquerda quando a costa da Holanda foi avistada. As trilhas de vapor deixadas pelos bombardeiros a caminho de Sorau se tornaram visíveis à frente. A camada de nuvens abaixo se tornava cada vez mais tênue. A visibilidade era perfeita.

A travessia da Holanda levou pouco tempo, pois os Mustangs estavam viajando a mais de 360 km/h. O grupo entrou sem cerimônias nos céus alemães; os pilotos começaram a esquadrinhar o céu, mas nem sinal da Luftwaffe. Bem à frente, os pontinhos que eram bombardeiros começaram a aumentar. O 355th estava chegando ao local de encontro com precisão cronométrica. Em poucos minutos, acima das águas azuis do Lago Dummer, os três esquadrões do grupo estavam em posição ao lado dos quadrimotores que deviam escoltar até Sorau. A tripulação dos bombardeiros ficou sem dúvida aliviada com a presença oportuna dos caças.

Para o tenente Brown e outros pilotos do grupo, a missão até então havia sido uma "moleza". O alvo estava próximo, e com a boa visibilidade Sorau certamente sentiria o peso das bombas americanas. A tarefa incômoda de voar em ziguezague e em círculos - para não se distanciar dos bombardeiros - e a constante vigilância contra caças inimigos mantinham ocupados os pilotos dos Mustangs. A armada aérea prosseguia sem problemas em direção à capital da Alemanha. E a Luftwaffe, que costumava reagir com presteza a ataques na região de Berlim, até então havia primado pela ausência.

Agora estavam chegando a Sorau. Berlim já estava à vista. Os caças se espalharam um pouco, antecipando o fogo antiaéreo. A longa fila de Fortalezas Voadoras e Liberators tinha que manter o curso e a altitude, enquanto os bombardeiros verificavam os cálculos, preparando-se para descarregar a carga letal. Enquanto isso, bolas de fumaça apareceram no céu, à frente e atrás dos bombardeiros - projéteis de 88 milímetros. Os bombardeiros prosseguiram em direção ao alvo, Sorau e sua fábrica de caças Focke-Wulf. Os alçapões das bombas foram abertos. Os pilotos dos caças assistiram, despreocupados e com visibilidade ilimitada, quando a chuva de bombas atingiu o alvo, produzindo clarões cegantes e grossos rolos de fumaça, envolvendo a Alemanha de Hitler num abraço mortal. Até então, tudo havia sido fácil.

Leva após leva de bombardeiros passou pelo fogo de barragem e bombardeou a cidade. Brown não sabia quantos bombardeiros os alemães haviam conseguido atingir, Mas as perdas entre os aviões protegidos pelo 355th haviam sido leves, e os caças alemães não haviam aparecido.

A cidade estava coberta por uma coluna de fumaça negra quando a força de bombardeiros americanos, agora bem mais leve sem a sua carga de bombas, preparou-se para voltar para casa. Para os caças do 355th, estava na hora de deixar a tarefa de escoltar os bombardeiros para outros grupos. Assim, quando os caças substitutos apareceram, os três esquadrões do grupo se despediram dos bombardeiros e olhos famintos começaram a examinar o território alemão a leste de Berlim. Os esquadrões do 355th se prepararam para o ataque.

O Líder do Grupo transmite as ordens pelo rádio. Os 354th, 357th e 358th devem se separar e procurar alvos de oportunidade. Os líderes do 357th e 358th confirmam a mensagem. Stewart baixa o nariz branco do seu P-51 e se afasta dos outros dois esquadrões. As esquadrilhas Branca, Azul e Verde o acompanham nessa ordem. O esquadrão está descendo rapidamente. Os tanques de reserva já foram ejetados. Os caças estão finalmente livres para manobrar e mergulhar.'

Lá em baixo, a terra do inimigo se torna um alvo, e os pilotos observam os subúrbios de Berlim, os campos, estradas e rios próxi mos. A velocidade aumenta à medida que os Mustangs descem num largo círculo, como falcões procurando uma presa. Todos os olhos procuram Stewart, agora o Haywood Leader, que é quem vai dar as ordens.

Uma voz quebra o silêncio do rádio: "Há um areporto lá em baixo". O Haywood Leader confirma a mensagem. É o Aeroporto de Strausberg, um dos campos de pouso que cercam Berlim. Fica alguns quilômetros a leste da capital. A Esquadrilha Azul vai descer e metralhá-lo. As outras esquadrilhas prosseguirão em busca de outros alvos. "Muito bem, vamos descer" - anuncia o Capitão Curtis G. Johnston, Líder da Esquadrilha Azul. "Vamos atacar em fila."

Agora todos estão tensos; os pilotos da esquadrilha examinam atentamente o aeroporto. O Líder da Esquadrilha Azul aumenta o ângulo de mergulho e aponta seus caças para uma região a oeste do campo. A velocidade do ar passa pela marca de 500 km/h e continua a aumentar. Os quatro caças se afastam gradualmente à medida que o mergulho prossegue. O solo se aproxima rapidamente. As árvores, estradas e casas crescem sem cessar. O aeroporto inimigo agora está claramente visível, cercado de baterias antiaéreas. Edifícios, uma única pista de pouso, vários aviões parados.... Os Mustangs da Esquadrilha Azul ainda estão descendo.

Brown vê quando Johnson diminui o ângulo de mergulho e se desvia para a esquerda, em direção à extremidade oeste do aeroporto inimigo. O Caçador de Hunos está desenvolvendo 640 km/h. Brown é o último dos pilotos de sua esquadrilha. De vez em quando ele olha para trás para ver se a retaguarda está livre. A frente, ele vê o Mustang do líder da esquadrilha completar o vôo rasante, as metralhadoras das asas cuspindo fogo.

Os outros três caças se preparam para imitar o exemplo do líder. Brown vê os dois pilotos à sua frente iniciarem a passagem. Ele move a alavanca ligeiramente para a esquerda e os acompanha... agora os caças à frente estão atacando os aviões estacionados. Os traçadores marcam o caminho dos projéteis, que traçam linhas no solo.

A Esquadrilha Azul está chegando à borda do campo, rumando para leste, num curso que levará os quatro Mustangs a passarem pela extremidade sul da pista de pouso. Ao lado da pista, Brown observa vários edifícios e uma torre antiaérea. Depois de passar pelas árvores que cercam o campo, ele baixa o nariz do avião e enquadra a torre na alça de mira. De repente, dois transportes JU-52, estacionados lado a lado perto do sul da pista, aparecem bem à frente. O Azul Três está atirando no JU-52 da esquerda. De repente, o avião explode. Brown pisa no pedal da direita e aponta o Mustang para o avião da direita, disparando imediatamente. O transporte da Luftwaffe estremece sob o impacto dos projéteis. Balas incendiárias penetram nos tanques de combustível, fazendo a gasolina explodir.

Brown levanta ligeiramente o nariz do avião, passa sobre sua vítima e inicia uma curva aberta para a esquerda. A esquadrilha se prepara para outra passagem. Quando se aproxima novamente do campo, Brown vê um bombardeiro JU-88 estacionado na pista. A1inhando o caça, Brown abre fogo. Seus projéteis varrem a aeronave inimiga, danificando a fuselagem e as asas.

Um movimento atrai a atenção de Brown. Ele olha para a esquerda. Um FW-190 está correndo pela pista... tentando decolar. Brown puxa a alavanca para trás e para a esquerda, fazendo uma curva fechada. O piloto inimigo é corajoso... tentando decolar no meio de um ataque! Brown, a algumas dezenas de metros de altura, toma um curso paralelo ao do alemão, rumando para o norte. Ele vê quando o Focke-Wulf deixa a pista e recolhe o trem de aterrissagem. Então, Brown se desvia novamente para a esquerda, colocando-se atrás do inimigo, que também está fazendo uma curva para a esquerda.

O FW-190 está desenvolvendo uma velocidade surpreendente, mas Brown tem um impulso maior e se aproxima rapidamente do caça alemão. A silhueta cinzenta do inimigo cresce sem parar. Brown estende a mão para o gatilho e o caça alemão começa a encher a alça de mira. O piloto inimigo continua voando baixo, tentando desesperadamente escapar do americano. Sua silhueta aumenta cada vez mais na alça de mira, trinta centímetros à frente dos olhos de Brown. O piloto inimigo percebe o perigo. Seu FW-190 está totalmente exposto, no meio de uma curva para a esquerda, e sem velocidade suficiente para manobrar. Agora está ao alcance de Brown. Fogo! Ao mesmo tempo, Brown puxa o acelerador para diminuir a velocidade.

Mesmo assim, Brown sabe que vai passar pelo caça alemão. Mas o 190 é atingido logo de saída. Brown mantém o gatilho apertado. Uma barragem
concentrada penetra na fuselagem e nas asas do caça inimigo. As metralhadoras do Mustang, cuspindo projéteis à razão de mais de oitenta por segundo, reduz a aeronave inimiga a pedaços. Partes do revestimento da asa, pedaços da fuselagem e todo o tipo de destroços são projetados para o ar. Brown está atirando à queima-roupa. De repente, o 190 começa a soltar fumaça.

Então... o caça inimigo mergulha para o solo! O 190 bate numa cerca, pula para o ar, cai de novo. Brown sobrevoa os destroços enquanto o piloto inimigo salta do avião e sai correndo. O ataque foi rápido e fulminante, deixando as metralhadoras do caça americano aquecidas ao rubro e o piloto sem respiração. Agora Brown faz a curva e passa várias vezes sobre o 190, tentando incendiá-lo. Mas o caça alemão não quer pegar fogo e a munição do Caçador de Hunos acaba.

Brown empurra novamente o acelerador para a frente e faz uma curva para a direita, olhando para trás. O Mustang está sozinho: Brown começa a procurar o resto da esquadrilha. Parece que se passaram apenas alguns segundos desde que ele avistou o 190, mas seus companheiros desapareceram. Eles tiveram tempo para atacar o aeroporto várias vezes enquanto ele perseguia o caça inimigo, e agora estão provavelmente a caminho de casa.

Brown puxa a alavanca para trás e olha para o indicador de combustível. Ele terá que voltar para casa sozinho. O Mustang atravessa graciosamente o céu azul, rumando para cima e para oeste. Mas dos companheiros, nem sinal. Brown dispõe de combustível suficiente para chegar a Steeple Morden, se não houver nenhum contratempo. Mas mesmo assim seria bom ter companhia. Os outros três caças da Esquadrilha Azul provavelmente se separaram dele, quando Brown fez uma curva inesperada para a esquerda, para perseguir o 190. Brown aperta o botão do microfone: "Aqui é Haywood Azul Quatro chamando Líder Azul... qual é a sua posição?"

A resposta é imediata: "Estamos todos juntos, rumando para oeste". Brown esquadrinha o céu à frente. Não há sinal da esquadrilha. O jeito é tentar alcançá-los no caminho. Brown acelera o motor e vê o ponteiro do altímetro subir ... 2.400, 2.700, 3.000 metros. Ele está passando pelos subúrbios de Berlim. De repente, o céu fica cheio de bolas de fumaça. O P-51 estremece. Brown baixa o nariz do avião e mergulha em direção ao solo. Ele sai do mergulho a poucos metros das árvores e toma novamente o rumo oeste. Então é atacado por fogo de pequeno calibre. Fazendo uma curva fechada, deixa Berlim para trás. Começa mais uma vez a subir. A altitude aumenta lentamente. Finalmente, Brown chega a 3.000, 3.600, 3.900, 4.500 metros.

A sua frente aparecem quatro pontos - caças! Parecem Mustangs. Brown solta um suspiro de alívio. Os quatro caças estão voando para oeste a aproximadamente 4.500 metros. Brown acelera o motor para diminuir a distância. A esquadrilha à frente não pode ser a Esquadrilha Azul. Nesse caso, só haveria três aviões. Será que é a Vermelha, a Branca ou a Verde? A distância diminui, a silhueta dos caças aumenta. Contra o céu azul, o perfil das asas ainda é apenas uma mancha cinzenta. Brown examina cuidadosamente os quatro caças, tentando identificá-los. O Mustang está ganhando terreno, o último dos quatro caças cinzentos está quase ao alcance de Brown. Esses Mustangs são difíceis de identificar... nenhum sinal característico, mesmo de perto.

De repente, a dúvida se desvanece. Brown sente um frio no estômago! Seu coração dá um pulo. Os caças à frente são ME-l 09. O leme baixo e arredondado não deixa lugar a dúvidas! É preciso diminuir a velocidade o quanto antes e tentar escapar sem ser descoberto.

Neste instante, o quarto ME-109 está enchendo a alça de mira, um alvo perfeito. É uma oportunidade rara. Mas Brown está sem munição. Furioso e amedrontado, Brown estende a mão esguerda para o acelerador, cortando a potência do motor. Por que não foi visto pelo inimigo? O avião perde velocidade, vai ficando aos poucos para trás. Brown baixa ligeiramente o nariz do avião, procurando colocar-se no ponto cego dos pilotos à frente. Ele não consegue compreender por que os pilotos alemães não estão preocupados com a retaguarda. Se estivessem, ele certamente teria sido descoberto. Brown aperta o botão do microfone e transmite: "Estou com quatro ME-109 a 4.500 metros, rumo oeste... a munição acabou... algum candidato?" Não há resposta.

O P-51 fica para trás sem ser notado. Afinal de contas, Brown vai conseguir escapar. Lá na frente, um pouco abaixo, dois pontinhos... caças! Quem são? Ainda ficando para trás, observando os quatro 109, Brown percebe que são dois Mustangs. Estão subindo e rumando para oeste. Ele sabe que os 109 também estão vendo os dois Mustangs. Foi por isso que não o descobriram! Estão se preparando para o ataque, com vantagem de altitude e posição. Em questão de minutos, os caças inimigos vão mergulhar sobre os P-51.

Brown chama nervosamente pelo rádio: "Dois P-51 subindo no rumo oeste, altitude três mil e quinhentos... há quatro 109 atrás de vocês!" Não há resposta. Brown repete o aviso: "Os dois Mustangs que estão subindo rumo oeste... há quatro ME-109 atrás de vocês. Fujam para a esquerda! Fujam para a esquerda!"

De repente, os Mustangs fazem uma curva brusca para a esquerda. Ainda estão em desvantagem, mas pelo menos parece que ouviram. .Brown não pode ter certeza. Os 109 também se desviam para a esquerda, diminuindo a distância. Será que os Mustangs ouviram mesmo? Brown empurra o acelerador até o fim. Com um rugido, o Mustang se projeta em direção aos caças inimigos. Os americanos estão em má situação. Mesmo que tenham ouvido o último aviso, podem não conseguir escapar dos perseguidores, que têm a vantagem da velocidade e da altitude, os dois grandes trunfos nos combates aéreos.

Ainda sem ser percebido pelo inimigo, Brown vai tentar surpreender os 109, interrompendo o ataque. No meio da confusão resultante, talvez os Mustangs à frente consigam enfrentar os alemães com vantagem ou, pelo menos, escapar. E os alemães podem pensar que estão sendo atacados por trás por mais de um Mustang. Brown resolve arriscar, em um esforço para salvar duas vidas.

Os dois americanos à frente estão fazendo uma curva para a esquerda, seguidos de perto pela esquadrilha inimiga. Brown faz uma curva mais fechada para diminuir a distância. Ele grita. pelo rádio: "Dois Mustangs virando para a esquerda continuem assim. .. Vou atacar os 109 por trás!" Finalmente chega uma resposta: "Está bem. ..estamos vendo os 109 e você também!"

Nesse instante, o inimigo descobre que está sendo seguido. O número três da esquadrilha baixa uma das asas e mergulha. Brown está mais perto do número quatro, que começa a encher o círculo amarelo da alça de mira. O piloto do número quatro fica apavorado. Ele não pode saber que Brown está sem munição, mas obedece às instruções, recusando-se a abandonar o resto da esquadrilha. En- quanto isso, os dois 109 da frente abrem fogo sobre os dois Mustangs, Agora, todos os seis aviões estão fazendo uma curva fechada para a esquerda.

"Desviem-se para a direita!" - grita Brown para os Mustangs, enquanto se aproxima rapidamente do inimigo. Um dos Mustangs baixa a asa direita e se desvia na mesma direção. A manobra súbita, aliada à presença de Brown na retaguarda, confunde os pilotos inimigos. Então o outro Mustang completa a curva e mergulha. Os 109 decidem continuar a fazer a curva, esperando desvencilhar-se de Brown, que continua a segui-los, agora quase colado ao número quatro. Enquanto isso, os dois Mustangs se afastam, incólumes. Brown olha para trás com desespero, ao mesmo tempo em que continua a fazer voltas atrás dos 109. Os Mustangs estão desaparecendo rapidamente na direção da Inglaterra!

Sozinho com os caças Inimigos, sem munição, Brown está numa situação bastante séria. Os aviões inimigos fecham cada vez mais a curva. Brown faz o mesmo, aproximando-se cada vez mais do número quatro. Voando de lado, o sangue faltando na cabeça por causa da força centrífuga, Brown tem que manter o blefe. Ele pensa que vai ficar no carrossel até a gasolina acabar... seus pensamentos procuram desesperadamente uma solução. Não há nenhuma. Os traçadores do caça da frente cortam o céu atrás dele. Quase encostado na cauda do último 109, Brown vê quando a solução aparece espontaneamente.

Incapaz de resistir por mais tempo à tensão, o piloto do último 109 baixa o nariz do avião e mergulha! Brown puxa a alavanca mais um pouquinho e levanta a cabeça para ver o 109 número dois, ainda voando de lado, ainda comprimido contra o assento pela força centrífuga. E o carrossel continua. Agora Brown está ganhando terreno sobre o número dois. Mas os segundos são horas nesse círculo desesperado. O piloto inimigo faz tudo que sabe para desvencilhar-se do Mustang solitário, subindo e descendo, fechando cada vez mais a curva. Brown quase desmaia com a falta de sangue, mas continua a diminuir a distância que o separa dos dois caças alemães. O inimigo não resiste à tensão. Seguindo o exemplo do companheiro, o número dois sai de repente da curva e mergulha.

Brown observa o caça por um segundo e então volta sua atenção para o último inimigo. Já se livrou de três. Agora só falta um! O líder da esquadrilha continua tentando alcançar o Mustang. Os dois caças estão separados por metade do círculo. Desta vez é mais difícil para Brown diminuir a distância. O inimigo é perigoso; se ele conseguir se aproximar do Mustang, suas metralhadoras farão o resto. O único jeito de Brown voltar para casa é conseguir sobrepujá-lo. Mais uma vez ele puxa a alavanca o mais que pode. Durante alguns segundos, é difícil dizer se ele está ganhando ou perdendo terreno. Então, pouco a pouco, o Mustang começa a diminuir a distância :

As cruzes negras, com bordas brancas, são claramente visíveis nas asas do caça alemão quando o P-51 se aproxima do caça inimigo e se coloca em posição de tiro. Brown vê a cauda do inimigo crescer. Em alguns segundos, o último dos 109 estará ao seu alcance.

O líder da esquadrilha, convencido finalmente de que o Mustang está levando vantagem, não espera pelos projéteis que nunca viriam. Como seus companheiros da Luftwaffe, ele aponta o nariz para baixo e mergulha em direção ao solo pátrio. Brown solta um suspiro de alívio. Ele venceu quatro
aviões inimigos sem ter que disparar um tiro e sem poder fazê-lo. Ele relaxa a mão direita, a alavanca vai para a frente e o Caçador de Hunos sai do carrossel.

A tensão diminui, Agora Brown pode esticar a cabeça e os ombros sem ter que fazer força. Ele puxa o acelerador para trás. Um ruído estranho! O Mustang estremece. É como se alguém estivesse batendo na fuselagem do avião. Então Brown compreende. A vibração não é do motor... o Caçador de Hunos está sendo atacado!

Brown olha para a esquerda. Buracos na asa! Uma mancha do lado direito - um ME-109 passa zunindo! O inimigo vinha depressa demais...felizmente... porque Brown acabou de cortar a aceleração. O inimigo sobe quase na vertical. O piloto alemão, que agora se colocou ao alcance de Brown, continua a subir.

Sem saber se há outros 109 por perto, Brown baixa uma das asas e mergulha rapidamente. O caça inimigo que o apanhou por trás foi provavelmente o primeiro piloto a fugir do carrossel. Ele teve tempo suficiente para subir de novo e surpreender o Mustang solitário. O P-51 avariado de Brown continua o mergulho. O inimigo não o segue - sorte inesperada! Brown olha para a bússola, procurando o rumo oeste, virando de vez em quando a cabeça para certificar-se de que não está sendo seguido. A agulha da bússola oscila erraticamente e depois pára. Brown dá um soco no instrumento... nada acontece. Está quebrada! Ele começa a subir lentamente, olha em torno à procura de companheiros voltando para casa. Ninguém à vista. Olhando para trás e para baixo, pois não quer ser apanhado de novo de surpresa, Brown estima o rumo de casa e acelera o avião.

O altímetro marca 2.400, 2.700, 3.000 metros. Lá em baixo, as nuvens estão ficando mais espessas; em breve será impossível a orientação visual. Ele precisa de ajuda. Como resposta a suas preces, Brown ouve vozes nos fones. ..o rádio está funcionando. Ele aperta o botão do microfone: "Aqui é Haywood Azul Quatro...fui atingido por um ME-109. A bússola não funciona. Estou tentando voltar para casa, Gostaria que alguém que está voltando me dissesse qual a posição do sol na nacele". Em poucos segundos, uma voz estranha, até hoje desconhecida, responde: "Coloque o sol no segundo parafuso a partir da frente na viga superior esquerda". Brown responde: "Entendido. Muito obrigado".

Brown olha para o sol. Ele está indo muito para o norte. Se continuasse nesse curso, acabaria perdido no Mar do Norte. Ele puxa a alavanca para a
esquerda e aperta o pedal esquerdo. O sol vai parar no segundo parafuso. Brown mantém o curso. Ele vai orientar-se pelo sol até chegar ao alcance de uma estação de radar da Inglaterra. Embora ainda esteja sobre a Alemanha, Brown calcula que as probabilidades em seu favor são maiores do que durante o encontro desesperado com caças inimigos. Seu motor está funcionando bem e ele dispõe de combustível suficiente para chegar a Steeple Morden. Pela primeira vez num espaço de tempo que parece uma eternidade, a esperança de chegar à Inglaterra se torna bastante real.

A uma altitude de 6.000 metros e mantendo uma vigilância constante em todas as direções, o Mustang solitário continua a cruzar os céus da Alemanha. O Lago Dummer aparece à frente... e depois fica para trás. Buracos nas nuvens cada vez mais espessas revelam o que deve ser a Holanda. Depois é a vez do Zuider Zee... e então a fina faixa de terra que o separa do Mar do Norte. O perigo dos caças alemães passou. Mas as nuvens agora são compactas e a navegação se toma impossível. O Mustang continua a cortar o céu, rumando para oeste... agora sobre o Mar do Norte. Brown está à procura de trilhas de vapor. Os bombardeiros devem ter deixado trilhas visíveis. Mas o céu está limpo. Brown começa a se preocupar com o curso. Ele estende a mão para o botão número dois do seu rádio de quatro botões, o botão do Serviço de Salvamento - monitorado constantemente pelas estações de radar da costa da Inglaterra - e pede ajuda: "Vocês podem me pegar no radar?" Os momentos de espera parecem uma eternidade. Então, uma voz longínqua quebra o silêncio: "Continue no seu curso atual. Acho que achei você". E então: "Faça uma curva de noventa graus para a esquerda". Brown obedece ao comando e espera.

"Positivo" - é a resposta. "Temos uma identificação positiva no radar. Faça mais uma curva para a esquerda." Depois disso, a voz continua: "Ainda estamos com você. Parece que você está no rumo certo. Chame de novo em cinco minutos".

O Mustang solitário continua a voar por cinco minutos. Então Brown chama novamente o Serviço de Salvamento. "Seu rumo está ótimo" - diz uma voz confiante. "Corrija cinco graus para a esquerd". Brow completa a pequena correção. "Muito bem. Você vai chegar à Inglaterra perto de Dunwich. Qual é a sua base?" "Steeple Morden" - respondeu Brown. O operador de radar continua a orientá-lo no céu agora completamente coberto de nuvens.

Brown continua a voar por um tempo para ele interminável, perdendo altitude aos poucos. Finalmente, o operador de radar chama de novo: "Você está sobre a costa. Corrija vários graus para a esquerda para chegar a Steeple Morden". Com isso, o operador de radar se despede. Então, Brown ouve pelo rádio uma voz familiar. É a torre de Steeple Morden, que acaba de saber do que está ocorrendo.

"Qual é o estado do seu avião?" - é a pergunta. "Apenas alguns buracos nas asas e uma bússola quebrada" - responde Brown. Mesmo assim, a torre mantém o contato, oferece ajuda. Pela primeira vez, Brown vê outros aviões voando na mesma direção. Se rão outros caças do 355th? Brown se aproxima mais um pouco e, pelas marcas nas asas, descobre que são realmente aviões do grupo também voltando da lomga missão. Brown olha para o relógio no painel de instrumentos: são 3:15. Ele está no ar há seis horas e quinze minutos, o que é um tempo extraordinário para um caça.

Baixando o nariz do avião cada vez mais e sem perder de vista os companheiros, Brown se aproxima de Steeple Morden. Agora aparecem alguns buracos na camada de nuvens. Brown reconhece a paisagem abaixo. Finalmente, a visão familiar dos edifícios e as pistas de pouso de Steeple Morden aparecem à frente. Brown puxa o acelerador para trás e alinha o avião para descer. Será que os "flaps" e o trem de aterrissagem ainda funcionam? A torre chama e sugere que ele estacione o avião em frente do quartel-general do esquadrão, ao invés de levá-lo até o estacionamento habitual.

Brown sobrevoa a pista a 150 metros de altitude e faz uma curva para a esquerda. Ele puxa a alavanca que comanda o trem de aterrissagem. O sistema hidráulico está funcionando; uma sacudidela mostra que as rodas desceram - a última preocupação se desvanece. Brown atravessa o ar a 200 km/h e toca o solo da Inglaterra às 3:20 - seis horas e vinte minutos depois de decolar! Nesse tempo, ele acrescentou dois aviões inimigos e um terceiro provável ao seu rosário de vitórias.

O Caçador de Hunos se arrasta pela pista até chegar ao quartel-general do 354th FS. Então Brown desliga o motor e salta. Uma multidão está à sua espera para iniciar os reparos e crivá-lo de perguntas. Brown responde todas, com voz cansada. Mas há uma coisa que ele quer saber. Quem são os pilotos que o abandonaram, sem munição, às voltas com quatro caças inimigos? Ninguém sabe.

O comandante do grupo recomendou uma Folha de Carvalho para a "Silver Star" de Brown por esta missão. Mas foi decidido que a "Distinguished
Service Cross" seria mais apropriada. Assim, o ás americano ficou detentor de um impressionante conjunto de condecorações, entre elas a "Air Medal" com dezoito folhas, a "Distinguished Fly Cross" com quatro folhas, a "Silver Star" e a "Distinguished Service Cross". A citação que lhe coriferiu a D.S.C. é a seguinte:

"Por extraordinário heroísmo em ação contra o inimigo, no dia 11 de abril de 1944: nesta data, o Tenente Brown, pilotando um caça (aeroplano) sobre território ocupado pelo inimigo, destruiu um avião inimigo e danificou outro em um ataque contra um aeroporto bem defendido. Enquanto subia novamente, viu um avião inimigo a pequena distância. Sem hesitar, atacou-o e destruiu-o. Embora o Tenente Brown tenha gasto toda a munição durante este ataque, quando observou quatro caças inimigos. Atacando dois caças amigos, ele, sem pensar em sua própria segurança, se dispôs imediatamente a ajudar os caças amigos. Sua determinação e ousadia forçou o inimigo a abandonar a luta. O heroísmo demonstrado pelo Tenente Brown, embora totalmente indefeso, e sua determinação de ajudar os companheiros, são motivo de louvor para ele mesmo e para as Forças Armadas dos Estados Unidos."

O ataque a Sorau não foi realizado sem perdas para os aliados. Quando os relatórios finais chegaram, foi descoberto que sessenta e quatro bombardeiros haviam sido perdidos na missão. Obviamente, os ataques mais sérios do inimigo foram feitos contra outras levas que não as defendidas por Brown e seu 355th Grupo.

A maior preocupação de Brown nas horas que se seguiram à missão era descobrir a identidade dos dois pilotos que haviam fugido de uma luta desigual na qual ele entrara para salvar suas vidas. Nessa mesma noite ele conseguiu o que queria. Os pilotos foram identificados em um dos outros esquadrões. Encontrando-os no bar, Brown perguntou furioso: "Por que diabos vocês dois me deixaram sozinho?" A resposta foi irônica: "Bolas, estávamos sem munição!"

 

in Ases da guerra aérea, Eduard H. Sim, Coleção Aventuras Vividas, ed. Record,

 

*****
 
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Clique nos links para ir a pagina.

Notícias e Reviews Anteriores

Ultimas do Forum